🌑 A Fotografia Quebrada e a Escuridão de um Corpo
- rafamininel
- há 5 horas
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Morava com o espectro de uma avó desde os quatro anos, quando o inferno engoliu seus pais. A casa era um túmulo empoeirado, e ele, a única e silenciosa assombração. Amigos? Apenas ecos de formalidade nas visitas da velha que vinham para sorver chá e julgar. Sua vida era uma abstinência do mundo: a maior vertigem, a mais patética das fugas, era a tela cintilante da novela, o ópio da senilidade de sua guardiã.
Cumpria rituais vazios: ia à igreja, mas sentia o gosto amargo do cinismo; lia os romances de capa mole, mas o amor era uma piada suja e distante; jogava bingo, mas o destino era um dado viciado. Não havia fé, nem chama, nem horizonte. A vida se esvaía, fria e cinzenta, como uma fotografia antiga sob um céu de chumbo.
O único vestígio de cor na casa, a única promessa de calor que sempre falhava, era a avalanche de bichos da avó. Cães, gatos, pássaros de gaiola, roedores nervosos... uma procissão de carne condenada. Todos morriam. Sempre. Veneno, asfalto, bocas famintas da noite, ou simplesmente a avidez cega da liberdade. O ciclo era cruel, rápido: ele jamais teve mais de três criaturas respirando ao mesmo tempo. As dezenas que passaram eram apenas lembranças putrefatas sob a terra.
A convivência sufocante com a avó, a ausência de um pai que fosse rocha ou mesmo sombra, moldaram-no numa fragilidade doentia, numa delicadeza que beirava o erro. A velha explorava essa maleabilidade. O garoto era o servo dos gestos suaves, das mãos que não feriam, das obrigações que exigiam ternura. A tarefa daquele dia era a mais macabra: ressuscitar o gato persa da avó, um amontoado de pelo "jururu" que há dias recusava a vida.
Lá foi o garoto. Prestativo, quase servil, tentando animar a massa moribunda. Horas de esforço inútil. O gato jazia, nem mesmo se movia. Depois, o vômito bilioso, um presságio. Veneno. O pensamento era imediato, visceral. O Seu Zé da Farmácia era o primeiro porto, um deus menor de aspirinas e unguentos.
— Só tem veneno... digo, só tem remédio pra gente aqui.
— Não tem pra criatura?
— Num tem não. Não. Tem. Não.
O retorno foi um banho de culpa e histeria.
Vó, o Seu Zé não conseguiu tratar o Osvaldinho.
Ai Meu São Francisco de Assis! A velha agarrou o santo de gesso, esfregando-o no rosto, as rugas retorcidas em pânico teatral. Meu gatinho tão queridinho vai morrer! Ai, coitado, o que ele fez pra merecer isso? Eles matam todos os meus bichinhos! Todos! A paranoia era uma doença crônica.
Calma, vovózinha... eu posso levá-lo ao matadouro... digo, ao veterinário, se a senhora quiser...
Ah, o meu netinho querido faria isso pela vovó? Faria? Meu anjo de mãos leves?
A lista telefônica era um catálogo de desilusões: preços que rasgavam o estômago, clínicas fechadas, transformadas em templos de um deus barulhento. Finalmente, um nome, um preço possível, mas a localização... A Favelona. O abismo. Um ninho de perigo e escuridão a quilômetros de sua bolha estéril. Eu vou ter que caminhar naquele esgoto? O tremor da repulsa foi superado apenas pelo chicote do dever. Pela velha, correrei esse risco idiota!
Com a mochila da penitência nas costas, ele carregou o kit de sobrevivência: o espelho para confrontar seu pavor, o refrigerante doce para afogar a bile, os biscoitos secos da avó... e o gato famigerado, um peso morto. Andou quadras sob o sol frio. E então, a linha. A fronteira imunda da comunidade.
Hesitação. Uma respiração que era um gemido. O sinal da cruz, ridículo e inútil. Ele entrou. Passos curtos, a coluna curvada pelo medo. Nada de monstros imediatos. Apenas casas disformes, vidas empilhadas. Lentamente, o terror deu lugar à curiosidade. O mundo ali era rugoso, cru, colorido com a sujeira e a vitalidade que sua vida nunca soubera. Gatos vadios, avós que pareciam mais duras, mais reais. O medo inicial era apenas a sua ignorância.
O ar tremeu. Um som. Não era a música limpa, estéril, que a avó lhe impingira, as sinfonias frias de gente com nomes impronunciáveis. Não era o piano que ele tocava com dedos de porcelana. Era algo úmido, pulsante, nascido da terra.
Ele correu. Virou um beco úmido e bateu de frente com o rugido primal. Uma roda de samba. O ritmo era uma mão que agarrava a virilha, os quadris que se moviam em promessas brutais, a cerveja escorrendo, o êxtase coletivo, suado e violento.
Ele se arrastou para perto. Seu corpo, acostumado à rigidez da culpa, começou a derreter. Os pés, ignorantes do chão, ensaiaram um tremor. Pediu a cerveja. O gosto era fel. Ele engoliu o resto por puro masoquismo, a ânsia por sentir algo que não fosse o vazio. Pediu outra. E mais outra. A vertigem era uma redenção. O álcool o abraçou.
Horas depois, era uma criatura de membros soltos, sambando como se o ritmo fosse a única verdade de seu corpo. Uma mulata, de um calor desumano, desliza em sua direção. Ele tentou a compostura, mas era um fantoche. Ela roçou nele, esfregou a vida selvagem contra sua inocência doentia. Ele não entendeu. Sentiu, apenas. Algo duro, feio, crescendo e se expandindo. Seu corpo, um casulo, explodiu. Ele era o céu. Não, não o céu de Deus. O céu da carne.
A mulher se afastou com um sorriso que era uma ferida. Ele cambaleou, o mundo em espiral, as calças grudadas na pele. O desejo era uma sujeira na sua alma. Embriagado, ele rastejou de volta ao caminho, o gato ainda em seus braços, um fardo esquecido.
Mais algumas quadras, a poucos metros do fim da favela, ele ouviu. Um som seco, sufocado. Um grito. Ele girou, a confusão do álcool nublando a visão. Outro grito abafado, seguido de um choro curto.
O som se tornou um ritmo doentio, constante. Vinha de um barraco com a porta entreaberta. Cautela não era mais uma escolha, era um reflexo da morte. Passos lentos, macios. Os gritos inchavam, se tornavam audíveis, viscerais. Ele se escondeu atrás da parede e espiou.
A imagem era um punhal de gelo no seu estômago.
Uma mulher caída. O pescoço... aberto. Uma garrafa de cachaça quebrada no chão. E a cena que vaporizou sua alma: um homem, alto e grosso, nu e bestial, em cima de uma criança, a mão sufocando o grito na boca dela. Um estupro.
O grito era dele. Um som agudo, histérico, que rasgou o véu da violência.
O monstro parou. Seus olhos, vermelhos, quebrados, fixaram-se nele com um ódio que cheirava a álcool barato. O cheiro de podridão, de suor, de sangue fresco, transformou o barraco num cenário de pesadelo, o inferno feito de madeira e miséria.
O que acontece aqui em casa só eu, minha mulé e minha fia tem que sabê! Ninguém mais pode vê nada... O que eu fiço, fiço com a minha fia, ninguém tem nada com isso! Que que cê tá oiando, muleque? Nunca viu? Vô te matá, desgraçado!!!
O garoto soltou o gato. O animal caiu, um saco de ossos. Ele correu. O homem pegou a enxada, um instrumento de morte. Os gritos do agressor e a fuga desesperada trouxeram a multidão, a matilha sedenta.
A cena para eles era clara, absoluta: O forasteiro, o delicado, o outro, havia invadido, estuprado a menina e golpeado a mãe. O pai era a honra, o vingador.
Pega o safado! Vamu lincha ele! Filho da Puta!
Correu. Mas a favela é um labirinto sem saída para a presa. Trinta rostos. Trinta armas improvisadas, os olhos brilhando com a sede de uma justiça brutal e rápida. Aquilo não podia ser real. Tinha que ser o álcool, a tontura. Ele era inocente. As palavras se dissolveram na garganta, transformadas em soluços e orações inaudíveis.
O cerco se fechou.
O gato, o famigerado Osvaldinho, foi atirado na sua frente. Decapitado. Um presente mórbido.
Ele se encolheu, uma bolha de pânico inútil.
O primeiro golpe: A lâmina pesada da enxada desceu, rasgando o peito. A dor, úmida e quente, era a prova final de que ele não sonhava. Vieram os outros. Chutes. Pontapés. Garrafadas. O linchamento era a catarse da comunidade. Pessoas tranquilas, de consciência lavada, certas de que haviam limpado o mundo de uma escória.
E naquela noite, não seria só a carcaça do gato que a velha encontraria falta. O delicado. O anjo de mãos leves. O netinho. Ele se desfez na lama, debaixo do céu chumbo que sempre o esperou.
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