Por que continuo escrevendo mesmo quando quase ninguém lê?
- rafamininel
- 6 de mar.
- 2 min de leitura
Existe um momento na vida de quase todo escritor em que uma pergunta começa a aparecer com insistência desconfortável:
vale a pena continuar escrevendo?
Não é uma pergunta dramática no começo. Ela surge devagar. Às vezes depois de terminar um livro e perceber que poucas pessoas o leram. Outras vezes depois de enviar um manuscrito para editoras e receber silêncio como resposta. Em alguns momentos ela aparece quando você percebe que o mundo parece correr em outra direção, cada vez mais rápida, enquanto um livro exige tempo, atenção e paciência.
Escrever não é uma atividade que oferece recompensas imediatas.
Um livro pode levar meses ou anos para ficar pronto. Mesmo depois de terminado, ele ainda precisa encontrar leitores. E isso nem sempre acontece da forma que o autor imaginou quando começou a escrever a primeira página.
Diante disso, muitas pessoas simplesmente param.
Param porque a rotina exige outras prioridades. Param porque a dúvida começa a falar mais alto. Param porque a sensação de falar para o vazio se torna pesada demais.
E, no entanto, alguns continuam.
Não necessariamente porque acreditam em sucesso garantido ou reconhecimento imediato. Muitos continuam escrevendo por um motivo mais simples e mais difícil de explicar: porque as histórias continuam existindo dentro deles.
Quem escreve conhece essa sensação. Uma ideia aparece e começa a crescer. Um personagem começa a falar dentro da cabeça do autor. Uma cena insiste em se formar mesmo quando ninguém pediu por ela.
Ignorar isso pode ser mais difícil do que continuar.
Escrever, nesse sentido, não é apenas uma atividade externa — algo feito para um público ou para um mercado. Muitas vezes é também uma forma de organizar pensamentos, de entender emoções, de transformar experiências em algo que possa ser compartilhado.
Talvez poucas pessoas leiam. Talvez o público cresça devagar. Talvez alguns livros encontrem mais leitores do que outros.
Mas cada história terminada ainda carrega algo raro: alguém decidiu persistir.
Em um mundo que valoriza cada vez mais o imediato, terminar um livro continua sendo um ato de paciência, de insistência e, de certa forma, de resistência.
E enquanto existirem histórias que pedem para ser contadas, alguns escritores continuarão fazendo exatamente isso: sentar diante da página e começar mais uma vez.
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