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A TRAGICOMÉDIA DE SÍSIFO E O SERTANEJO ACIDENTAL

  • rafamininel
  • 11 de fev.
  • 10 min de leitura

A mente, um ninho de vespas. A concentração, uma anedota cruel. O amigo ao lado era, em menos de um nanossegundo mental, o arqui-inimigo jurado, o potencial traidor a ser estudado e destruído. Sua mente, um arquivo da dor, desembrulhava cada humilhação, cada decepção passada, transformando o mais ingênuo 'bom dia' em um cifrado ardiloso do mais pérfido gatuno. E, claro, a cortesia do sorriso — a máscara de seda do futuro algoz — era indispensável.

Este grandioso ser era, afinal, um Teórico da Conspiração de Excelência, o que por si só atestava a minúcia esquizofrênica com que seus planos eram construídos, remontados e ensaiados até a exaustão neurótica. Adorava diseccionar adversários, antecipar suas reações, e até o pensamento mais sutil era coletado como prova de uma traição ainda não cometida.

E, como se a patologia não fosse suficientemente rica, ele era um diletante das Artes, mas não um mero apreciador; era um conhecedor vampírico. Saboreava, degustava, sugava a alma da obra. Conseguia detectar a fibra mais tênue, o traço de gênio que o próprio artista, talvez bêbado ou distraído, não notara ter deixado. Transbordava sobre Schopenhauer e Victor Hugo, Rafael e Galileu, em um fluxo de erudição que duraria horas. Se por um lado era um oráculo do Belo e do Divino, por outro, era um eunuco criativo.

Ele sabia todas as regras, todos os macetes para erguer a obra-prima — havia até criado uma cartilha de avaliação para críticos medíocres (e que, ironicamente, se tornou bestseller no submundo acadêmico) —, mas era incapaz de dar o primeiro traço. Era um Blefador de Gênio, não um Artista. Seu problema: a disciplina era sua camisa de força. Faltava-lhe o ingrediente que transforma o artesão em mestre: Ousadia. (Putz... agora pareci o trecho motivacional de um TED Talk com trilha de ukulelê).

Lá estava ele, mais uma vez, na labuta estéril. Em sua imaginação, balsavam "emoções futuras", "pensamentos duvidosos" e "ideias inovadoras" que, ao tentar serem fixadas, escorriam como a água que ele tentava segurar. O que Da Vinci pensou ao criar Mona Lisa? Horas de abstração forçada. Falhou. Novamente.

A raiva borbulhava: Aquele exército de medíocres que conseguiam pintar a flor, rimar amor com dor (ou, mais modernamente, com sofredor), enquanto ele, o arauto da estética, era um deserto. Lançou-se ao delírio da inspiração: passou uma noite inteira, pés descalços em uma bacia de água fria, numa tentativa de contrair uma Tuberculose Romântica para se juntar à linhagem de Byron. Felizmente, a medicina moderna, essa inconveniente destruidora de mitos, curou-lhe o princípio de resfriado em tempo recorde. Nem para morrer de forma poética ele servia.

E o pior: eles ganhavam dinheiro! Não bastava o êxtase da criação eterna, a glória imortal; tinham que embolsar os milhões para decorar a mansão de algum magnata de gosto duvidoso. Mundo injusto, justamente imundo, mundialmente… (A arte da aliteração, o último refúgio dos que não conseguem criar enredo).

O dilema era duplo: 1) A esterilidade criativa. 2) A ausência do dinheiro que a criatividade lhe traria. A primeira era uma sentença de nascença: ele era o melhor crítico do mundo e o pior criador. Inegociável. A segunda, porém... Ah, a segunda abria uma fresta: ele poderia criar algo ruim e ganhar dinheiro. Mas o quê?

O ruído. Aquela cacofonia perturbadora que interrompeu sua vã filosofia, uma afronta sônica à sua bolha de superioridade. Um carro de som. Volume ensurdecedor. O veneno cultural em sua forma mais concentrada: sertanojo, ou breganejo, ou cornoculture. Por que diabos o mau


gosto precisa ser compartilhado a decibéis que destroem o tímpano e o pensamento? Ninguém nunca viu um carro tocando Vivaldi no talo! Porque Vivaldi não precisa provar nada. O Sertanojo, sim.

Nosso aspirante a artista, um intelectual de porcelana, tremia em repulsa. A figura de um 'cowboy urbano' — aqueles com a fivela-prato-giratório e o chapéu-de-cornoimponente — causava-lhe náuseas e enxaquecas neurais. O inferno astral era ter que conviver com a evidência de que a massa realmente gosta do lixo.

Então, o estalo. Não o de um raio divino, mas o de um cálculo maquiavélico. Ele prestou atenção nas letras (argh!). Traição, cachaça, chifre, solidão, a dor brega. Horríveis. Lamentáveis. Perfeito! Eram tão ruins que pareciam escritas por ele! Lembrou-se dos milhões de CDs vendidos, dos shows lotados, das mansões na Caras. EURECA! A solução para a falta de dinheiro era a prostituição estética: escrever música sertaneja.

O trauma inicial foi superado pela visão dos louros: O cheiro de estrume? As cantadas de peão ('Ô lá em casa')? Ignoráveis! O dinheiro era o bálsamo. Pegou a caneta. Tentou. Rabiscou. Nada. Sua mente, treinada para a complexidade barroca, era incapaz da simplicidade burra. O que um sertanejo ouviria? Ele não fazia a mínima ideia, pois era alérgico.

O caminho óbvio, humilhante, era admitir o vício: Comprar um CD.

"Pô, era a primeira vez que eu me drogava, nem tinha me viciado e já teria que procurar os traficantes para comprar mais drogas."

Venceu o medo e foi à "boca" (a loja). Quase infartou com os preços. Absurdo! Não bastava a degradação sonora, a venda em massa, tinha que ser esse preço exorbitante? A prova incontestável da riqueza indecente dos reis do brega.

Paradigmas quebrados: aceitou ouvir, aceitou escrever, aceitou comprar. Mas o preço era o limite. Então, a derradeira queda: o Mercado Informal. Se já estava no lamaçal, que rolasse até o pescoço. Se aceitou escutar lixo, qual o mal em comprar um CD pirata?

Caminhando para o Camelódromo, ele se sentia o protagonista de um western noir: O intelectual no Velho Oeste do Contrabando. Ele, o mocinho, indo comprar a bebida ilegal (o CD). O traficante (o camelô). A Lei Seca (o direito autoral). Os índios (os fiscais à paisana). Precisava de uma persona. Algo que fizesse o delinqüente temê-lo, um Rei do Submundo da Alta Crítica.

Enquanto ensaiava seu discurso, caminhando para o confins da terra sem lei:

— Em que posso ajudá-lo, senhor?

Ele deu um pulo histérico, a gazela saltitante em pânico! Virou-se e deu de cara com uma vendedora meiga, assustada com o grito dele. Não era uma leoa, nem um rugido. A humilhação era total.

Saiu correndo, direto para a vida do crime. Em breve, serei tema de um rap: "Magnata, cheio de dinheiro/ sujeito sangue bão/ entrou na vida do crime/ e hoje seus filhos o visitam na prisão." (Olha só, um verso. Ele era um rapper frustrado também!).

Chegou ao "local do crime" e, retomando a persona, fez sotaque de malandro de filme antigo:


Aê, irmão, quanto tá o CD?

Trêis real, truta...

Me deixa ver um aqui. Caramba, que falsificação tosca aqui na capa... Er, quer dizer... Trabalho firmeza, mano, tu faiz uma fita da hora, aí...

Aê, ô figura, tu num é daqui da área não, né?

Ele, sem pestanejar, soltou o discurso do submundo:

Sô sim, moro eu mais a Jusicreide num barraco aqui perto. Faço minhas fita tudo lá, passo um pózinho do bão lá, mermão. Si tu quisé, é só chegá lá e chamá o Maloquero Muito Loco. Além do pó, tenho tamém umas arma pra ti discolá; tudo coisa granfina.

Conseguiu o desconto. Saiu feliz, acreditando piamente que foi respeitado como um grande traficante. Sentia-se o próprio Dom Corleone da Pirataria Musical.

Em casa, o fone. O primeiro CD. A epifania masoquista: O país estava cheio de zumbis manipulados pela mídia que vomitava lixo. Ele, o militante do PSTU da estética, tinha uma missão.

Ouviu a primeira, a segunda, a décima música. Todas sobre a mesma tragédia cíclica: a Traição Conjugal. Puta que pariu, vai ter corno assim lá na casa do capeta! Ele nunca tinha sido traído, nunca fora casado. Outra encruzilhada: desistir do dinheiro ou se tornar, por estratégia, um Chifrudo Profissional.

Decidiu que, após negociar com traficantes e usar drogas (o sertanejo), um chifrinho era um detalhe menor. O problema era a ausência da esposa traidora. Onde encontrar o casus belli conjugal?

O destino: Casas de Tolerância, o eufemismo que os leigos chamam de puteiros. O sertanejo, a droga mais pesada de todas, o levava a lugares cada vez mais medíocres. Gastou o pouco que tinha em bebidas para "damas". Resultado: Bêbado, falido e sem namorada (o fracasso era seu único talento inato).

Arrasado, depressivo, a garrafa de uísque. E, no meio do inferno astral alcóolico, ele escreveu. Desmaiou.

Acordou no dia seguinte, ressaca de guerra, a cabeça girando. Na mesinha, as folhas lambuzadas de uísque seco. Um esforço de concentração e, eureka! A letra sertaneja estava pronta!

O caminho das pedras era o do vício: A embriaguez era a musa do Sertanejo. Faltava a música. Ele, o crítico de orquestras, pensou que três aulas de violão resolveriam. Para compensar a dor de aprender brega, matriculou-se em violino para aulas de música clássica nas horas vagas.

A semana foi uma rotina de autodestruição: Aulas de violão (manhã e tarde) e a noite, a maratona de embebedamento para escrever as letras. No fim, oito músicas. Faltavam três. A ressaca crônica impediu o consumo de mais álcool. O desespero fez o gênio aparecer: uma canção sobre amamentação infantil (inspirada numa caixa de leite), outra sobre a futilidade existencial da cerveja sem álcool ("Se pudesse comprar a tontura separada seria melhor!") e, a obra-prima da sátira, uma música sobre um Guerrilheiro Iraquiano Senador da República Brasileira, criado por terroristas colombianos e metido em escândalos de propina (o clímax da desinformação pop).

Onze músicas. Gravadora. O amigo no estúdio:


Sertaneja? Ah, e cadê o outro da dupla?

Não, sou sozinho.

COMO???? Cantor sertanejo que se preze tem que arranjar outro corno pra cantar junto. Essa é a chave do sucesso.

Ele, o crítico, não havia percebido a obviedade da Dupla Sertaneja: A Estrutura Social da Cornoculture.

O amigo arranjou um "corno dos bão" lá do Goiás: o Grande Valdomiro. Mais de cinquenta anos, baixo, franzino, desdentado, sujo e fedendo. Cantava como se estivesse em trabalho de parto intestinal.

Meu Deus, como que eu vou formar uma dupla com esse cara? Ele canta parecendo que tá com dor de barriga.

Primeiro: ele é chifrudo, já começa bem. Segundo: ele não vai cantar. Você já viu uma dupla sertaneja em que os dois cantam? É um só, o outro fica parado com cara de bunda; na hora do refrão ele só mexe a boca.

Aceitou a farsa. O CD foi gravado. O sucesso, como um vírus, espalhou-se rapidamente.

Bares, churrascarias, rodeios. Clip de TV com coreografia de Axé e Carlinhos de Jesus. Mais sucesso que Beyoncé.

Nosso cantor estava confuso: Rico e triste. Contribuindo para a difusão do lixo sonoro, transformando pessoas em mortos-vivos que preferiam a coreografia fascistapornográfica e as letras estúpidas que coisificam mulheres, em vez de lutar contra a corrupção. A música sertaneja, o Ópio do Povo, patrocinada pelos políticos para manter o cérebro da massa ocupado. Mas o dinheiro era doce. Ele continuou.

O Réveillon. Show transmitido em cadeia nacional. O país inteiro na frente da TV. Ele, no palco, sob a luz dos holofotes. Lembrou-se do começo: a brisa, as pernas trêmulas, o medo da perda. Mas agora, o medo era de ganhar. Ganhar o dinheiro, ganhar a fama, ganhar a aceitação... à custa da sua alma.

O show começou. A primeira nota. Ele atirou o chapéu (o símbolo da sua traição) no chão, rasgou a camisa xadrez (o uniforme do seu crime), quebrou o violão (o instrumento da sua queda) e sacou um Violino. Começou a tocar Beethoven (a redenção).

A multidão ficou em êxtase. Eles aplaudiram. Achavam que era a mais nova música da dupla. (A prova definitiva: o povo não gosta de sertanejo; eles gostam de não pensar. Qualquer coisa vomitada pela mídia é engolida).

O discurso subversivo começou. A denúncia da música, dos políticos. Foi vaiado, o show virou pancadaria. Ele fugiu. Foi chamado de biltre e sofista. Dias depois, o país o esqueceu. Eles sempre se esquecem.

Com o pouco dinheiro que sobrou após os processos e quebras de contrato, ele comprou um rancho. Pobre, criticado, mas feliz por ter tentado salvar a alma do país (e a dele, no processo). Não ouviria lixo musical nunca mais.

Anos mais tarde, ele se candidatou a Deputado Federal.

E se elegeu.


O mundo da arte perdeu um crítico, a moralidade ganhou um traidor, e o sertanejo descobriu que o caminho mais lucrativo para a corrupção não era a música, mas a política. Sísifo, afinal, trocou a rocha por uma emenda parlamentar.

Gostaria de ler um trecho do rap que o Maloquero Muito Loco poderia ter escrito sobre a vida do nosso "Dom Corleone"?

蘃蘁蘂 O Rap de "Maloquero Muito Loco" sobre a Saga do Magnata

(Batida pesada, grave no máximo, samples de violão sertanejo distorcido e Beethoven)

[Verso 1: Maloquero Muito Loco]

Aí, escuta a fita, que o Doutor Maloqueiro chegou

Pra contar a história de quem o jogo virou

Não é conto de fadas, é capitalismo selvagem na veia

De como o engomadinho aprendeu a usar a ganguéia.

Tava lá na área, no escuro, vendendo a mercadoria

Quando um moleque esquisito colou no meio do dia Perfume francês, tênis limpo, 'cê tá ligado o naipe?

Parecendo um pato, com medo de ser preso por hype.

[Refrão - Chorus (Com um falsete satírico, quase um gemido brega):]

Ele era o Magnata Sem Grana, o teórico falido Queria a arte do povo, mas só pensava em artigo Chifre fake, barba feita, o Don Corleone de R$ 3!

Vendeu a alma pro brega, se vestiu de freguês!

Agora é o Rei do Sertanejo, o dono da mansão

Trocou o Shakespeare pelo CD que vende na mão.

[Verso 2: Maloquero Muito Loco]

Chegou falando grosso, sotaque de novela fajuta

Achando que era bandido, mas era só um refuta Falou em pó, falou em arma, se meteu na minha vida

Pra comprar CD pirata de uma música podre e fudida.

Ele queria a fórmula, o segredo da grana fácil

Pra enfiar no seu ouvido e matar o seu intelecto Lácio.

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Viu no corno a saída, no sofrimento de fachada

Virou bêbado depressivo pra fazer a letra cagada.

Foi no puteiro, foi no uísque, procurou a putaria Mas o único 'crime' dele era a falta de ousadia.

[Ponte: Maloquero Muito Loco (Mais agressivo, com ironia amarga)]

Dizem que fez o show, tocou clássica, deu moral pra cultura Quebrou o chapéu no chão, fez a crítica, cagou na ditadura!

Moleque tolo! Achou que o povo ligava pra B**eethoven?

A massa aplaudiu, achou que era o novo hit, jovem! Ele fugiu, levou porrada, achou que era herói, coitado Mas o povo esquece rápido... é um rebanho drogado.

[Outro - Maloquero Muito Loco (Desacelerando, com risada seca)] Perdeu a grana, perdeu o moral, ficou na lama, chorou.

Mas o vagabundo não se mata, ele só se reposicionou.

Fez o crime final, o golpe de mestre, 'cê tá ligado?

Virou político! E agora tá rindo, eleito Deputado!

Saiu da música, mas não saiu do esquema de desviar.

Magnata, cheio de dinheiro/ sujeito sangue bão... agora vai roubar e não precisa rimar.*

(Fade out com a risada)

O que achou da crítica e da poesia do "Maloquero Muito Loco"?

 
 
 

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