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Escrever no tempo do ruído

  • rafamininel
  • 11 de fev.
  • 2 min de leitura

Existe uma sensação estranha em escrever hoje: nunca tivemos tantos canais para publicar e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil ser realmente lido. A impressão é que a palavra escrita disputa atenção com tudo ao mesmo tempo — notificações, vídeos curtos, notícias urgentes, memes, crises coletivas e pequenas distrações infinitas.

Isso muda a percepção de quem escreve.

Antigamente, muitas experiências literárias aconteciam em ambientes mais concentrados: uma plateia no teatro, um círculo de leitores, um jornal local, um livro físico passado de mão em mão. A reação podia ser mais imediata porque o contexto favorecia a presença. Hoje, a leitura muitas vezes acontece em fragmentos, entre tarefas, no meio do cansaço. Nem sempre o silêncio significa desinteresse; às vezes é apenas excesso de estímulos competindo.

Também existe outro ponto pouco discutido: textos mais densos, mais reflexivos ou menos “rápidos” tendem a provocar respostas mais lentas. Nem sempre geram curtidas instantâneas, mas podem gerar algo mais duradouro — pensamento, identificação silenciosa, impacto tardio. Isso não invalida quem busca alcance amplo, mas ajuda a relativizar a ansiedade por validação imediata.

Escrever, então, vira um exercício de posicionamento interno. Não apenas “para quem”, mas “por quê”. Há quem escreva para diálogo rápido. Há quem escreva para permanência. Às vezes as duas coisas se encontram. Muitas vezes não.

No meu caso, continuo escrevendo porque acredito no processo. Nem sempre há retorno visível. Nem sempre há aplauso. Mas há construção, amadurecimento e, ocasionalmente, encontros inesperados com leitores que chegam depois — às vezes muito depois.

Talvez relevância não seja apenas volume de leitura no presente. Talvez também seja consistência ao longo do tempo. E, nesse sentido, continuar escrevendo ainda parece uma aposta válida.

 
 
 

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1 comentário


Maria Beatriz Reis
Maria Beatriz Reis
12 de fev.

As pessoas desaprenderam a ler… hoje só querem o que é rápido, fácil. Apenas as manchetes, nunca a matéria completa… para quem escreve bem deve ser desanimador mesmo!

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